VoiceOver no Mac OSX: o Bom, o Mau e o Insuportável
Muito se tem falado na acessibilidade dos dispositivos IOS (Iphone, Ipod e Ipad) e de forma merecida: apesar dos elevados preços, têm acessibilidade nativa e bastante satisfatória a pessoas cegas e com baixa visão, graças ao leitor de ecrã VoiceOver e outras ferramentas assistivas. Diria até que virou moda, para possível ressabiamento de certas e determinadas elites que, honestamente, aprecio muito beliscar.
Além dos dispositivos móveis, a Apple incluiu igualmente uma versão do VoiceOver no Mac OSX, sistema operativo destinado aos seus computadores portáteis (macbook, Ibook…) e computadores de secretária (Imac, macmini,…). Apesar de algumas semilhanças (compreensíveis e desejáveis), a interacção com o VoiceOver é necessariamente diferente nos dois tipos de dispositivos, e claramente mais complexa no Mac OSX, onde, obviamente, são realizadas tarefas bem mais complexas que num dispositivo móvel a correr IOS.
Já tinha tido algum contacto com o VoiceOver no Mac, nem sempre satisfatório. Porém só esta semana tive acesso a um macbook a tempo inteiro para testes sérios, para poder reflectir com alguma propriedade. Neste artigo direi o que penso sobre o VoiceOver no Mac OSX, acessibilidade das aplicações nativas e de terceiros, bem como algumas considerações gerais sobre o próprio sistema na minha perspectiva de utilização muito pessoal (que poderá não ser a da maioria dos utilizadores). Direi o que julgo que é bom, o que penso que é mau e poderia ser melhorado, e o que é simplesmente insuportável. Muito ficará por dizer, talvez num próximo episódio.
Aviso Prévio à Navegação
Este artigo não é, nem pretende ser, um tutorial ou algo do género sobre o VoiceOver. Tratam-se de simples considerações que valem que valem.
Aos religiosos fanáticos dos produtos Apple que leiam isto: eu sei que o Mac OSX não é o Windows, nem um Lsistema baseado inux (é Unix). Eu sei que é diferente. Eu sei que vocês acham que ainda é mais diferente do que na realidade é, e isso é para vós um previlégio por conseguirem usá-lo e outros não. Eu sei que se não conseguir fazer algo no Mac OSX com o VoiceOver é porque não conheço o leitor suficientemente bem, ou sou demasiado estúpido para usar um computador tão lindo como um Mac. Sabendo eu tais coisas, logo à partida, evita que percamos todos tempo em considerações desnecessarias sobre o quão fantástica é a Apple e a minha resistência em converter-me a essa religião. Aos outros utilizadores Mac, não fanáticos, agradecem-se, como sempre, a leitura e comentários.
O Bom
Começando pelo princípio,a instalação e configuração do sistema operativo – o Mac OSX 10.7 – é totalmente acessível por voz, contando, desde logo, com o VoiceOver. Mais, o VoiceOver começa a falar por padrão, sem nenhuma sequência especial de comandos ou coisa que o valha. Caso o utilizador não precise do leitor de ecrã simplesmente ignora-o, caso precise (o meu caso), escolhe o idioma quer utilizar com o VoiceOver, e segue as instruções. O tutorial do VoiceOver é apresentado logo ao ser iniciado, mesmo durante a instalação, o que é óptimo para utilizadores completamente desconhecedores do leitor de ecrã e do OSX.
Visto que já tinha tido experiências esporádicas com o VoiceOver no Mac OSX, e ter lido a documentação – em inglês – disponível no site da Apple, configuração do leitor de ecrã, rede, actualizações do sistema, etc., foram realizadas sem quaisquer problemas e de forma acessível, apesar de sentir, por ainda não conhecer bem o sistema, algumas dificuldades em encontrar o que quero. As configurações mais comuns estão facilmente acessíveis, é apenas uma questão de se procurar.
As aplicações nativas do sistema são bastante acessíveis. Editor de textos, gestor de ficheiros – Finder – até o Garage Band (editor de audio). A usabilidade O de algumas delas com o VoiceOver poderá ser questionada, mas o facto é que os conteúdos podem ser lidos e trabalhados, de uma forma ou de outra. Aplicações de terceiros, como o Skype, têm um ou outro probleminha, mas uma rápida consulta a outros utilizadores ensina os truques mais comuns. Quando as aplicações do sistema não agradam existem alternativas, por exemplo o Adium em relação ao Ichat, para mensagens instantâneas. Obviamente que existem aplicações inacessíveis, como em todo o lado. Apesar de não ser um utilizador regular de aplicações de escritório, estará nos meus planos uma avaliação do Iworks da Apple, principalmente o programa de folhas de cálculo Numbers. Normalmente associa-se produtividade a aplicações de escritório e uma avaliação destas parece-me importante para perceber a viabilidade do Mac OSX para cegos, a nível profissional
e escolar (pelo menos para gente comum que não usa LaTeX e precisa não somente esmo da folha de cálculo)
O VoiceOver para Mac OSX é um leitor de ecrã bastante competente. Com isto quero dizer que, apesar dos comandos estranhos e de alguns conceitos completamente fora do comum (mais sobre isto adiante) tem a maioria das funções que se está à espera no leitor de ecrã: segue o foco do teclado, tem um cursor próprio para navegação pelas janelas e controlos, permite trabalhar com o ponteiro do rato, teclas rápidas para navegação em HTML, ETc. A utilização de gestos equivalentes aos usados nos touchscreens do Iphone, por exemplo, através do tracpad, para controlar o VoiceOver no Mac, é também muito útil, por questões de hábito e, visto os comandos de teclado serem o que são, é uma alternativa bastante produtiva em navegação básica pelas interfaces das aplicações. O leitor de ecrã tem muitas configurações, que podem ser ajustadas ao gosto do freguês e a situação em que se encontra. Tem, ao que parece (ainda não testei) as actividades, que permitem associar um conjunto de definições a aplicações específicas.
A ferramenta Spotlight, não sendo necessariamente associada ao VoiceOver nem a acessibilidade, mostra-se igualmente de comprovada utilidade e rapidez no acesso a aplicações, documentos e outras informações, guardadas no computador. De notar que tal ferramenta não é exclusiva do Mac, no Ubuntu existe uma aplicação para o mesmo fim no unity, bem como em outros ambientes em Linux.
O mau
Os comandos de teclado do VoiceOver. É sempre um assunto subjectivo, contudo sendo a interface primária de entrada do VoiceOver os seus comandos de teclado, é de suma importância a impressão que eles dão ao utilizador. Na minha opinião os comandos simples, de pura navegação, são só por si demasiado complexos de introduzir. Repare-se, os comandos de interagir e “desinteragir” com controlos, utilizados quase tanto como a simples navegação do cursor, exigem 4 (quatro) dedos para serem introduzidos. O mesmo para clickar com o rato, e variadas outras acções. Felizmente há muitos cegos que sabem tocar piano são utilizadores de máquinas braille Perkins. Duas das teclas (control+option – tecla VO) significam que o comando é um comando específico do VoiceOver. Não se entende bem a utilização de duas teclas (noutros leitores de ecrã é apenas uma, e pode ser melhor personalizada); mesmo que estejam ao lado uma da outra, é sempre preciso usar dois dedos para as escrever.
Quase todos os comandos do VoiceOver são baseados nestas teclas, inclusive os comandos de navegação com o cursor do voiceOver. Activar a navegação rápida permite apenas utilizar as setas, no entanto é preciso desactivar essa navegação por muitas vezes, basta que se precise, por exemplo, de editar um campo de texto. Existe também um modo de trancar a tecla VO mas sofre do mesmo problema.
Os comandos do VoiceOver não seriam tão problemáticos se o leitor de ecrã não fosse tão intrusivo. Clarificando: um cego ao usar o Mac OSX com o VoiceOver está constantemente a requerer comandos do leitor de ecrã e não do próprio sistema. Julgo que tal se deve, em boa parte, à uma deficitária navegação via teclado no OSX, em comparação com Windows ou Linux. Um breve exemplo: como se acede a um menu de uma aplicação sem o comando VO+m do VoiceOver? Para compensar este défice a equipa do VoiceOver teve que encontrar alternativas. Por outro lado a constante interacção explícita com controlos torna-se aborrecida, enquanto não se ganha o hábito de a suportar. Tirando controlos simples como caixas de texto, em que o foco do teclado é automaticamente definido ao navegar-se com o cursor do VoiceOver (quando configurado para tal), até em simples tabelas e necessário utilizar o comando de interacção para ler as suas linhas, e sair da interacção para voltar ao nível anterior.
Convém referir que o conceito de interacções apresenta, ao utilizador, uma noção hierárquica da interface da aplicação o que, em certa medida, padroniza e facilita a forma como diferentes aplicações são utilizadas. Por outro lado, quando até no navegador de ficheiros é preciso interagir explicitamente com a lista dos nomes e informações dos ficheiros, as coisas começam por ser muito pouco produtivas. Parece que se utiliza mais o VoiceOver que o sistema Mac OSX em si, e sem dúvida de forma muito diferente do que a que é feita sem o dito leitor de ecrã.
A navegação por conteúdos em HTML também não é um dos pontos fortes do leitor. É preciso configurá-lo para activar as teclas rápidas, usar a navegação no tutor e desactivar algumas informações na verbosidade para que se torne cómodo navegar em páginas web. É, todavia, uma navegação similar àquela presente no VoiceOver para IOS, o que, para quem possui um Iphone, por exemplo, facilita muito na adaptação. As constantes mudanças de navegação rápida para o foco normal do teclado (ou utilização dos comandos do cursor do VoiceOver) também é meio incómoda ao preencher formulários complexos. Algo realmente absurdo do ponto de vista do utilizador é considerar dois frames distintos numa página como dois elementos diferentes para interacção, para muitas páginas isso não faz qualquer sentido e o utilizador poderá pensar que a página apenas tem um frame e não ler o conteúdo do resto da página. Para quem está a ver é óbvio, mas para quem não está…
Apesar de existir alguma documentação para iniciantes, principalmente em inglês, penso que sofra de dois problemas graves, ao contrário do que acontece com a documentação do VoiceOver no IOS. Por um lado é pouco detalhada (tendo em conta a maior complexidade de um leitor de ecrã para desktop)e, parte do pressuposto que o utilizador já tem algum conhecimento de leitores de ecrã e informática, o que só por si não foge do habitual neste tipo de documentação (é assim na maioria dos outros software do género). A maior questão é que a interacção com o VoiceOver e suas ferramentas é definitivamente diferente daquela que é realizada, por exemplo, em leitores de ecrã para Windows. Tal deve-se, como já abordei, a diferenças não só na concepção do leitor de ecrã como da interface do OSX. Porém, acredito que a diferença de utilização do Windows para o OSX é muito maior para um utilizador cego do que para alguém com visão normal: para estes últimos o rato é o mesmo, as janelas são as mesmas, e, além de pormenores como os botões de minimizar/fechar/maximizar estarem do lado contrário, parece tudo, à superfície, bastante semelhante. No caso do VoiceOver, peço muitas desculpas, mas a transposição de conhecimento não é tão fácil assim. Não existe, da própria Apple, uma real explicação de muitas das funções do leitor e suas aplicações práticas, por forma a que o utilizador possa transpor os seus anteriores conhecimentos de leitores de ecrã para o VoiceOver. Porque vejamos bem, os leitores e os sistemas podem ser diferentes, mas as tarefas que o utilizador executa normalmente não o são. Existe sim uma ajuda do VoiceOver (VOºh) com uma referência de comandos bastante completa, bem como um tutorial, no entanto, se não se souber o que se está à procura, é sempre difícil de encontrar.
A adaptação ao OSx não é instantânea, o que poderá provocar frustrações a alguns utilizadores. Tal terá que ser compreendido e aceite, não só pelos iniciantes no sistema (ter mais calma, paciência e alguma abertura), bem como os utilizadores avançados: não julgar que por alguém não saber ou não conseguir fazer uma coisa não tem capacidades para usar um produto Apple (fanboys!).
Convém referir, para felicidade dos utilizadores de lingua portuguesa, recursos como o Dicas Apple ou o grupo Acessibilidade Apple, entre outros, podem ser de valiosa ajuda.
O Insuportável
O facto do VoiceOver dizer hiperligação antes de cada link é das coisas mais irritantes desta vida. Ao que me lembro o Window-eyes sofria do mesmo mal. Felizmente no VoiceOver dá para desactivar e substituir por um som. O mesmo com o anúncio das maiúsculas.
A tradução da interface do VoiceOver para português não é lá daquelas coisas. É nitidamente feita por alguém que, apesar de bom tradutor, não conhece a realidade das pessoas cegas e o que precisam num leitor de ecrã. O sinal de aspas (“) é anunciado como “citação” (nesta linha o VoiceOver acaba de ler sitação citação citação).. Existem vários outros exemplos que, apesar de não comprometerem a boa utilização do leitor (se conhecidos) podem ser no mínimo irritantes. Nota-se alguma falta de acabamento e consulta/participação dos utilizadores não só na produção do VoiceOver como da sua localização, etc. Felizmente a tradução “travessão Cansado” presente no IOS para o caracter underscore (_), foi corrigida.
O já conhecido sintetizador Vocalizer, usado no IOS e também agora vendido para o NVDA, está presente no OSX e é usado pelo leitor de ecrã. Ao contrário do que já ouvi dizer, tenho muito boas razões para acreditar que poucas ou nenhumas correcções de pronuncia foram feitas à voz da Joana (português de Portugal). Este sintetizador já é usado à algum tempo pela Apple e muitas correcções obvias já poderiam ter sido feitas, pela própria Apple ou pelo fabricante do sintetizador, a Nuance Communications, visto a sua ampla distribuição nos dispositivos Apple e não só. Esperava um bocado mais, pelo menos a julgar pelos comentários super-satisfeitos que tenho escutado…
Não necessariamente insuportável para o resto do mundo, mas para mim é: alguma documetação digna sobre scripting do VoiceOver via Applescript é, no mínimo, indispensável ao equilíbrio do mundo. Uma simples referência, apesar de útil, exige bem mais tempo despendido para aprender, e tempo é caro, por estes dias.
Os erros meio esporádicos, como ficar sem voz por um tempo, ou sem volume ao desligar os auscultadores, são algo realmente insuportável, mas nenhum leitor de ecrã está livre dessas coisitas…
Conclusão
Apesar das críticas que fiz, acredito que o VoiceOver é um leitor de ecrã bastante capaz e permite uma utilização satisfatória do Mac OSX. As definições padrão não me agradaram nada e, como tal, perdi algum tempo a personalizá-lo a meu gosto. Com alguma personalização é hábito na utilização julgo que os problemas e situações irritantes tendem a desaparecer, ou pelo menos tende a ser mais simples conviver com elas. Para quem precisa de programar nesta plataforma, ou usar aplicações que requeiram excelente processamento de audio (entre outros) parece-me, definitivamente, uma opção muito interessante. Para os outros, tem os seus pontos fortes e pontos fracos. Um dos pontos fracos é, sem quaisquer dúvidas, o tempo necessário a uma adaptação ao sistema que permita uma utilização produtiva do mesmo. Umas férias são óptimas para isso.
| Autor: | ruibatista |
| Publicado: | Sexta-feira, 15 de Junho de 2012, 04:13 |
| Categorias: | acessibilidade, artigos, leitores de ecrã, Mac | Etiquetas: | APPLE, OSX, VoiceOver |