Dois Anos A Acreditar

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009 por diogo

Muitas vezes pensamos que o computador faz tarefas realmente incríveis e nem sequer damos importância às ferramentas que utilizamos no dia-a-dia. A combinação entre um leitor de ecrã, um sintetizador de voz e uma linha Braille é simplesmente espectacular. A forma com que o JAWS, Hal ou NVDA, entre outros interpretam o que está no ecrã e depois juntam a informação como se fosse um pusle divertido dá que pensar. Vejamos o diálogo do Microsoft Word quando questiona se pretendemos guardar as alterações a um documento:
A primeira peça a ser colocada no local correcto é o título da janela. Depois, perante muitas e muitas hipóteses, o olhar atento e astuto do leitor de ecrã faz com que retire outra peça a informar que estamos perante um “diálogo”. A próxima tarefa é ler o texto estático que se apresenta: “Pretende guardar as alterações ao documento 1?”. Outro passo que não é menos importante refere-se à leitura da etiqueta do controlo seleccionado que por norma é “sim”. Já no fim, o leitor de ecrã volta a procurar perante as muitas e muitas peças aquela que informa ao utilizador que está perante um “botão”.
Agora vamos falar da dança que os pontos Braille fazem num terminal Braille ao sabor da música da informação acessível. Alegremente vão saltando e formando imagens tácteis com um significado sublime e singular. A rapidez com que cada ponto salta para dar origem às letras jamais pôde ser imaginável até à invenção deste produto. O tempo utilizado desde a recepção do texto, passando pela tradução através de uma tabela até à ordem para os pontos saltarem é mínimo, sendo esta uma das formas mais rápidas de se produzir Braille no mundo. Acrescentando-se a isto, o utilizador pode configurar a firmeza dos pontos, ajustando da melhor forma este sistema de leitura e escrita às suas necessidades.
Por fim, temos um sintetizador de voz que numa maratona recolhe letra por letra, sílaba por sílaba, frase por frase, pausa por pausa, número por número e recorre alegremente às regras de gramática, fonética, entre outras que tem embutidas para dar vida e criar desta forma imagens sonoras da informação. Um sintetizador por norma é muito flexíveel, podendo o utilizador configurar o volume, velocidade, entoação e inflexão da voz. A forma de trabalhar de um sintetizador é tão poderosa que existem softwares destes que cantam de uma forma exemplar.
A combinação de um leitor de ecrã com a voz e o Braille foi, é e será capaz de transportar milhões de pessoas para um mundo mais justo e congruente. Quantos não são os que trabalham, estudam e distraem-se com estas ferramentas? Mais que nunca, é talvez a hora de se fazerem reflexões realistas sobre a utilização destas tecnologias de apoio tendo em vista uma aproximação consciente da informática para cegos da informática em geral.
Tendo em conta o que foi referido anteriormente, torna-se necessários haverem testemunhos documentados em português sobre as tecnologias para cegos. Só poderemos avançar com firmeza rumo a um futuro melhor se reconhecermos as vantagens e desvantagens de cada aplicação, tendo sempre em conta o utilizador final que merece ser respeitado e auxiliado de uma forma adequada às suas necessidades.
Em Fevereiro de 2007, surgiu um projecto denominado megaTTS (mega Text To Speech ou mega Conversão de Texto Em Voz) que tem como objectivo principal trazer informações técnicas e avançadas em português sobre a tiflotecnologia. Contudo, este objectivo não é o único. Ao longo dos tempos foram surgindo novas ideias, moldando desta forma a nossa filosofia, tendo sempre em vista a melhoria das condições das pessoas. Assim, deu-se início em Portugal à tradução, suporte e programação de tecnologias de apoio gratuitas, open source e com qualidade. Os resultados começam a ser visíveis, apesar da ascensão de aplicações com estas características ser lenta não em termos de evolução mas em termos de divulgação. Esta é a melhor forma de agradecermos a quem nos tem ajudado.
O futuro adivinha-se risonho, o que se pensava ser impossível é cada vez mais uma realidade e acreditamos que os portugueses serão capazes de aceitar novos métodos e funcionalidades. Poder-se-á pensar que estamos de certa forma a sonhar, o que não é de todo mentira. É a sonhar que se criam novos objectivos e que se fazem novas apostas em algo que consideramos verdadeiramente útil. Em suma, a mensagem que queremos passar a todas as pessoas que aprendemos durante estes dois anos de megaTTS é que a acessibilidade está cada vez mais nas nossas mãos e não em burocracias que nunca deixam de ser meramente projectos que nunca vêem a luz do dia. Se acha que isto é possível, comemore connosco!

MegaTTS, 22 de Fevereiro de 2007 a 22 de Fevereiro de 2009, quando o seu computador fala – http://www.megatts.com

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One Response to “Dois Anos A Acreditar”

  1. Elton Lopes diz:

    Olá,

    Concordo em todos os aspectos com o Diogo.
    Por exemplo, no caso do NVDA, quem diria que, desde o dia 25 de Fevereiro (data em que foi anunciado no megaTTS), este leitor de ecrã evoluiria de forma espantosa até aos dias de hoje, atraindo muitos utilizadores com as possibilidades que oferece?
    Se não se lembra, veja este artigo. É certo que o programa já não se encontra disponível por diversos motivos, mas está bem presente na memória de todos nós as evoluções que foram ocorrendo neste leitor de ecrã.
    Desde o suporte para sintetizadores Sapi4, a implementação de um comando para efectuar a leitura do estado da bateria de um portátil (contribuição do Rui Batista), a tradução da interface deste leitor de ecrã para Português, a possibilidade de já ler o histórico do programa Windows Live Messenger (a partir da revisão 1018), e a mais recente, a implementação da comunicação com linhas Braille, através do BRLTTY…
    E muitas mais que não foram destacadas aqui. Contudo, poderá dar um saltinho aqui, e ver todas as notícias publicadas sobre este leitor de ecrã, e talvez, perceba melhor o que quero dizer.
    E agora, já acredita que os projectos de código aberto podem ir longe?