Novidades no jaws 10 beta

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008 por Sérgio Neves

Venho hoje comentar algumas das novidades do jaws 10 beta, aquelas que penso serem as mais interessantes, todas elas relacionadas com a web e, apesar de serem novidades no jaws, não são revolucionárias. Então vamos lá.

Auto Forms Mode

Todos nós já interagimos com formulários web: é através destes que fornecemos os dados requeridos para efectuar operações que precisem de dados do utilizador, por intermédio de text boxes, combo boxes, check boxes, etc.

Ora, até há pouco tempo a maioria das pessoas (incluindo eu) estava habituada à filosofia adoptada pelo jaws para operar com estes elementos. Devido a questões avançadas e muitas delas fora do meu conhecimento, para o utilizador poder navegar numa página web tal como faz num ficheiro de texto e para além disso utilizar teclas de navegação rápida, os programadores do jaws implementaram uma camada adicional, um buffer próprio, para onde são copiadas as páginas após serem carregadas pelo browser, podendo o jaws utilizar esse buffer como quiser. Assim, não é possível interagir directamente com os elementos dos formulários. Para contornar essa situação, os programadores implementaram uma funcionalidade a que chamaram forms mode (modo formulário), que permite que as teclas sejam passadas para as aplicações em vez de irem para o jaws. Esse forms mode tinha de ser activado manualmente quando se queria interagir com o formulário, e podia ser desactivado de duas formas: ou quando se carregava num botão de submit, ou então manualmente, caso o utilizador já não quisesse interagir com ele.

Esta forma de interagir com os formulários era única até há pouco tempo. De facto, os programadores do leitor de ecrã Orca (leitor para o ambiente gnome (um ambiente gráfico)que corre em distribuições Unix),
tiveram uma ideia completamente inovadora no que toca aos formulários. Não foi criada nenhuma camada adicional, nem tão pouco existe o conceito de buffer virtual ou de forms mode. Dentro do possível, o utilizador interage directamente com as aplicações e o orca não se mete no meio (claro que para serem utilizadas teclas de navegação rápida tal como no jaws tiveram de proceder a pequenos ajustes).

Devo confessar que, talvez por estar habituado à velha maneira, ao princípio fiquei um pouco renitente a esta nova forma de interagir com os formulários, mas acabei por me habituar. Afinal, se queria navegar na internet no linux e com um browser de última geração não tinha outra hipótese. E, se formos mesmo a pensar, a ideia dos programadores do Orca não é de todo “idiota”: reduz a complexidade do código e aproxima as pessoas deficientes visuais das pessoas normovisuais (já não sei quantas vezes aconteceu estar uma pessoa normovisual a usar o meu computador com o jaws ligado e dizer-me: “olha, isto não escreve, o teclado deve estar estragado. Mas não, porque aqui no word funciona.. que estranho”, o que até é engraçado porque me proporciona grandes momentos de riso e a oportunidade de “gozar” uns segundinhos com a pessoa).

Porém, estes momentos de riso poderão ter os dias contados se no futuro fizer o upgrade para a versão 10 do jaws. Com efeito, os programadores do jaws resolveram imitar o que os do orca já tinham feito, chamando à nova funcionalidade de Auto Forms Mode (Modo Formulário Automático). Direi até que do ponto de vista de usabilidade foram mais felizes, em prejuízo da maior complexidade do código, mas para o utilizador isso pouco interessa. Passo então a explicar.

Os programadores do jaws devem ter partido do pressuposto que quando o utilizador usa as teclas de navegação rápida para navegar, quer apenas explorar a página como um todo, e portanto o o Modo Formulário não é activado nas situações em que ele carrega nessas teclas; apenas é activado quando ele anda com as setas ou com o tab, pois aí já está mais preocupado com os pormenores da página e com grande probabilidade já não quer andar a passear de um lado para o outro. Mas não se ficaram por aqui: para agradar a todos, implementaram uma opção em que se define o tempo ao fim do qual, se se chegar a um elemento de um formulário por intermédio de uma tecla de navegação rápida e permanecer esse tempo nesse elemento, o Modo Formulário é activado. Ora, tenho de concordar que neste ponto foram inovadores e conseguiram agradar aos gregos e aos troianos. No entanto, a funcionalidade de base e o conceito subjacente não são deles. E se a comunidade do Orca quisesse/tivesse dinheiro para patenteá-la talvez não a pudessem anunciar agora. Não fora a quesília do jaws com o leitor de ecrã da concorrência, não estivera aqui a falar em patentes, até porque nem sabia que se patenteavam assim funcionalidades pequenas. Neste caso penso que a Freedomscientific podia ter sido mais tolerante, porque agora precisou de recorrer a conceitos de outros e ninguém lhe disse nada. E por sorte têm quase de certeza muito mais programadores que o Orca e podem-se dar ao luxo de pintar a funcionalidade com cores mais vistosas e com isso proporcionar mais conforto ao utilizador.

Gestor de teclas rápidas de navegação

Com este gestor introduzido no Jaws 10, é possível alterar as teclas atribuidas às teclas de navegação rápida, de modo a ficarem ao gosto do utilizador. Esta funcionalidade também já tinha sido implementada no Orca. Aliás, no Orca o mesmo gestor dá para as teclas todas, não sendo preciso ter um gestor específico para as teclas de navegação rápida.

Suporte a regiões dinâmicas de páginas web

Regiões dinâmicas são partes de páginas que os autores querem que mudem dinamicamente, como o conteúdo de células de tabelas, funcionalidades para salas de chat, etc. Já existem muitas páginas deste tipo para pessoas normovisuais, o problema é o de como torná-las acessíveis. Esse problema tem sido analisado por grupos como o W3C e a
Mozilla, estando em desenvolvimento um standard, o ARIA (accessibility rich internet applications), que se propõe resolver este problema. Todas as páginas que sigam este standard e que forem vistas no firefox 3 ou no internet explorer 8 (que ainda está para sair) serão acessíveis com o jaws 10.

Mais uma vez o Jaws não foi o pioneiro a dar suporte a estas modernices; outros leitores de ecrã como o Orca já o fizeram antes.

Conclusão

O Jaws continua (e continuará por muito tempo) a ser o melhor leitor de ecrã, no entanto agora ajudado por outros que, não tendo o dinheiro deste gigante, têm ideias brilhantes. Ao aproveitar as ideias de outros leitores de ecrã, está a valorizar o trabalho daqueles que não trabalham apenas por dinheiro.