JAWS e Eloquency, Uma História
Já lá vai o tempo que um deficiente visual tinha de se contentar só com um sintetizador de voz que era fornecido com o leitor de ecrã. Actualmente existem diversos motores de voz em comercialização em Portugal para este público. A Tiflotecnia (uma das empresas que comercializam materiais tiflotécnicos na área de Lisboa, cobrindo todo o paÃs) responde-nos a uma entrevista de uma maneira sábia, sincera e profissional. Rui Fontes, o seu representante para além de nos brindar com a sua honestidade, oferece a sua experiência neste campo como profissional e utilizador. Esta entrevista visa fornecer de alguma maneira informações que actualmente não são muito divulgadas.
Diogo - Quando é que nasceu a Tiflotecnia?
Rui Fontes - A Tiflotecnia nasceu em em meados de 1999, começando por ser apenas um nome comercial, pois exercia a actividade como empresário em nome individual, o que aconteceu até 1 de Outubro de 2004, data de criação da Tiflotecnia -Informática e Acessibilidade, Lda.
Diogo - Qual foi o primeiro produto que comercializaram?
Rui Fontes - O primeiro produto que comercializámos foi o Virtual Vision, um leitor de ecrã brasileiro, e o Zoom Text, um ampliador de ecrã.
Diogo - Qual foi o leitor de ecrã que comercializaram antes do JAWS?
Rui Fontes - Como está respondido atrás, foi o Virtual Vision, por ser o único que, na altura, possuÃa um sintetizador de voz portuguesa em software. Assim que o Jaws passou a utilizar o Eloquence, com a versão 3.5, pensámos logo na sua distribuição em Portugal, e tornou-se realidade a partir de Dezembro de 1999, já com a versão 3.7 que já incluia o Eloquence em português do Brasil.
Diogo - Os portugueses davam-se bem com o Delta Talk (sintetizador de voz que acompanha o Virtual Vision)?
Rui Fontes - É uma questão a que nunca pude responder… As vendas do Virtual Vision em Portugal foram muito pequenas, e, nessa altura, dominava, quase em exclusivo, o Apollo, o que condicionava muito a aceitação de qualquer sintetizador diferente. Ao princÃpio os utilizadores do Jaws, na sua grande maioiria, utilizavam-no com o Apollo, e não com o Eloquence, o que ainda hoje acontece com alguns…
Eu gostava muito da voz do Delta Talk, o sintetizador do VV, até começar a usar o Jaws com o Eloquence… Ao fim de alguns meses de uso exclusivo do Jaws, por necessidade de me familiarizar com o novo leitor de ecrã, liguei outra vez o VV, e achei que a voz era bem pior que a do Eloquence…
Diogo – Porque é que o Eloquency está em Português do Brasil se o JAWS era
Comercializado pela Tiflotecnia em Portugal?
Rui Fontes – Porque o eloquence, ou Eloquency, é uma variante do IBM Via Voice, e esse já tinha a voz em português do Brasil desenvolvida.
Diogo - O Eloquency foi exclusivamente desenvolvido para ser utilizado por pessoas cegas?
Rui Fontes - Creio que não, embora me pareça que o Eloquence e o sintetizador que lhe serviu de base, o IBM Via Voice, sejam dos mais direccionados para esse mercado…
Diogo – Lembra-se quais foram as primeiras palavras que ouviu com o JAWS através do eloquency em Português do Brasil?
Rui Fontes – “Sair do menu”, salvo erro.
Diogo - Acha que o Eloquency veio revolucionar os sintetizadores existentes até então em Portugal?
Rui Fontes – Penso que sim, pois o único sintetizador de lÃngua portuguesa em software que havia na altura era o Delta Talk, do Virtual Vision que também era comercializado por nós.
Diogo - Quais são para si as diferenças entre um sintetizador InteligÃvel (Ex. Eloquency) e um sintetizador Natural (ex. Real Speak)?
Rui Fontes - A velocidade de resposta e a inteligibilidade de idiomas estrangeiros…
Diogo - Acha que actualmente as pessoas em geral confundem muito um leitor de ecrã com um sintetizador?
Rui Fontes - Penso que com o aparecimento de vários sintetizadores, Real Speak, Madalena, Loquendo, Amália e Eusébio, e Infovox, Célia, essa confusão terá tendência a desaparecer, mas ainda tenho clientes que me perguntam como podem mudar do JAWS para a Célia…
Diogo - Tendo em conta a sigla JAWS (Job Access With Speech - Acesso ao Trabalho Por Voz) considera que este leitor de ecrã discrimina em termos teóricos o Braille porque este não faz parte da sua sigla?
Rui Fontes - Não, apenas que o nome ainda reflecte a situação que se vivia na altura da sua criação. Nessa altura não existiam praticamente linhas Braille, e convém lembrar que a linha Braille é uma invenção europeia… O compromisso da empresa com o Braille pode ver-se pelo trabalho que é dedicado ao suporte do Braille no JAWS, à criação e distribuição de linhas Braille, à produção de NoteTakers, PDA’s, com linhas Braille, etc…
Diogo - Na sua opinião, quem é que deve ter um dicionário? É um leitor de ecrã que deve ter um ou é o sintetizador que deveria de ter um incorporado?
Rui Fontes - Penso que ambos… O leitor de ecrã deveria ter um muito básico, e o sintetizador deve ter um dicionário potente, mas que venha de fábrica apenas com entradas básicas, para que o utilizador o possa criar à sua medida…
Diogo - O Eloquency tem algum dicionário interno?
Rui Fontes - Sim, mas nunca compreendi muito bem como funcionava, e por isso nunca o utilizei para tentar melhorar a pronúncia de palavras.
Diogo - Porque é que os leitores de ecrã em geral adoptaram dicionários para os sintetizadores e não para o Braille? Será o Braille menos importante do que um sintetizador?
Rui Fontes - Por uma razão muito simples… Uma das funcionalidades mais importantes de uma linha Braille é a verificação da ortografia, e isso não é possÃvel com a utilização de um dicionário.
Diogo - Os sintetizadores que as empresas em Portugal comercializam são especÃficos para cegos?
Rui Fontes - Não.
Diogo - Quais são as suas perspectivas quanto aos sintetizadores no futuro?
Rui Fontes - Serem cada vez mais perfeitos e mais rápidos, e que consigam detectar o idioma das palavras, e adaptar-se sem perda da velocidade de resposta…
Será utopia?
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